• Taís Veloso

O trabalho inovador de Bruna Black

A cantora Bruna Black nasceu em 07 de Julho de 1999. E começou a cantar com apenas três anos de idade na igreja em que frequentava. Entre as suas inúmeras referências as principais são: Elza Soares, Itamar Assunção, Iza, Ludimilla e o grande Chico César, esse último, Bruna teve o privilégio de cantar ao lado na Casa de Francisca. A cantora conta que já conhecia sobre o trabalho do cantor com o coral jovem.


Certo dia, foi prestigiar Chico César com um ingresso que recebeu de presente de seu amigo, ocorreu de Bruna Black estar bem afiada com as músicas inéditas do cantor e acompanhando ele da plateia, chamou a atenção do artista que a convidou para o palco e ela cantou uma música com ele. No final do show, Chico César fez outro convite ainda mais irrecusável a Bruna. A chamou para cantar com ele no show do dia seguinte e então ela aceitou e os dois cantaram juntos.


Bruna possui uma composição leve, contemporânea, de lírica poética acessível e autobiográfica. A cantora diz que a maioria das suas canções são feitas a partir de histórias que realmente acontecem com ela. Traços de uma personalidade intensa e profunda, sendo que a cantora é muito jovem e fala de forma elucidativa sobre sentimento, empoderamento entre outras temáticas.


Falando em empoderamento o próprio nome artístico Black, vem de sua transição capilar, seu TCC foi sobre identidade. Bruna diz: -“Então, na aula de imagem e gestão de carreira, a gente tinha que escolher um nome artístico. Logo fui convencida pelos amigos a assumir o meu cabelo! Comecei a transição e voltei das férias do segundo semestre (que eram três), com o cabelo blackzinho, logo na época que estava pra escolher meu nome artístico, as pessoas falavam “olha, a Bruna de Black” “olha,ela cortou o cabelo, vai ficar lindo seu black” “Bruna Black” , e assim eu escolhi esse nome pra mim.” –


Além do empoderamento estético, Bruna causa revolução em quem acompanha suas redes sociais, stories, textos reflexivos sobre a negritude, política e religião. Bruna não fica em cima do muro. A cantora chama atenção em suas redes sociais por se posicionar sempre. Além de encantar com a sua beleza e a sua voz. Sobre sua sexualidade, parafraseando Lulu Santos, Bruna diz que toda forma de amor é bem vinda.


A artista não para de trabalhar, além de seus trabalhos solos, faz parte do parte do coral jovem do estado, estuda canto erudito na Escola Municipal de Música de São Paulo, trabalha na escola Ayodele Balé, onde leciona canto aplicado ao movimento para criança, além de lecionar aulas privadas de canto para adultos. E não para por ai, a multi-artista também trabalha como modelo, e atriz em curta metragem. A arte está na veia e pulsa no coração de Bruna Black.


Vem aí, um single novo que traz em uma de suas músicas a noção de “Copo meio cheio”, uma metáfora para resiliência, ver o lado positivo das situações.

E é assim que Bruna Black é, uma pessoa que vê o lado positivo das situações, que transborda luz e positividade.


Seu trabalho exige um ouvinte atento para os desafios de interpretação que ela lança, sua arte é inovadora e nela nunca existe um ponto final, e sim, uma linha de espaço com continuação para o ouvinte com olhar mais treinado completar. O ouvinte de B. Black é o ouvinte Co-criador que participa de sua arte. Não é um ouvinte passivo e sim, reflexivo, desenvolto.


Cada ouvinte vai construir a sua interpretação e a sua própria arte junto com B.Black.

Segue a minha sugestão de interpretação da música Lagoa, deixo elucidado aqui que a depender da experiência de vida do ouvinte, a interpretação poderá vir a ser diferente.


Lagoa


Você não merece nem minhas memórias

Nem os versos que escrevi

Nem as histórias

( Nessa estrofe o eu lírico da compositora aparece admitindo que suas histórias são verossímeis externamente e demonstra-se um certo arrependimento pelo "você" lírico que aparece na canção)"


Você quis ver o meu copo meio cheio

E eu quis te transbordar você nem veio

Comigo

("Copo meio cheio" aqui é tudo o que o eu lírico tinha a oferecer)

Morrer em alto AMAR

No alvoroço do calor humano

eu quero mergulhar

E tu foi pra mim apenas uma lagoa

(Aqui B.Black "joga com as palavras", morrer em alto amar, na canção parece que podemos ouvir morrer em alto mar. A lagoa, certamente é algo menor mas não menos importante do que o mar. O mar pode ser revolto, a lagoa sempre estável. Isso diz muito sobre o trabalho da cantora e sua vida pessoal)


E eu achando que era ocê

Meu oceano

E eu achando que era ocê

(Naturalmente o ouvinte acostumado com o dialeto mineiro interiorano consegue perceber o mais um jogo de palavras com Ocê =você + oceano)

Cê lembra dos nossos corpos se embolando ?

Ocê lembra do quando a gente ria,

ria conversando ?

Cê lembra daquele encontro que marcamos ?

Pra você me dizer o porquê que não dava.

(Memórias felizes do eu lírico, em que este, também se recorda do momento em que a pessoa faltou ao encontro para explicar o motivo de não dar certo a relação).


E eu achando que era ocê

Meu oceano

E eu achando que era ocê

Meu oceano

E achando que era oceano


O single, surge como uma foto de Bruna e uma outra bela garota. Que compõe o quebra-cabeças, o código para o ouvinte decifrar. A personagem que Bruna escolheu para estar na capa ao seu lado não apenas mantém o olhar firme sobre ela como também possui em sua frente um copo meio raso, o que abre margem para essa e amplas interpretações. Essa é uma obra para ser apreciada e decodificada começando pela sua imagem. Em tempos onde o racismo urge e a intolerância grita, Bruna Black consegue transmutar tudo isso em amor.

Modelo : Stella Chidozie

Fotógrafo: Alysson Freitas

Edição da foto: ALEEF

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