• Taís Veloso

O doce desconhecido e o resgate de uma vida

Atualizado: Jun 24


O doce desconhecido e o resgate de uma vida, de Cleide Regina Scarmelotto (2015), conta a história de uma adolescente de 13 anos de idade, na década de 70 que por se comportar mal em casa e responder rispidamente aos pais é levada a um ginecologista que a receitou remédios fortíssimos psiquiátricos o que a leva a ter um caso de iatrogenia psiquiátrica que é quando o paciente adoece por conta de remédios psiquiátricos que não são necessários. Com isso, a personagem, Joyce é internada no manicômio de Palmares em são Paulo, no ano de 1979. Aos 13 anos de idade. Lá Joyce está internada com outras pacientes que assim como ela não necessariamente são loucas e algumas que são doentes de verdade, que tentam arrancar seus olhos, que urinam no seu quarto. Enquanto Joyce entra em conflito com os médicos do hospital psiquiátrico, questionando e observando a própria loucura deles.


É um livro de denúncia e antimanicomial, que nos remete a obras muito conhecidas, o filme( Girl interrupted, 1999), dirigido por James Mangold, o livro Verônica decide morrer, de Paulo Coelho (1998) e principalmente o filme Bicho de sete cabeças, dirigido por Laís Bondansky. Obras que questionam a loucura e a normalidade de forma realista. Nas quatro obras, é possível observar a dignidade dos personagens sendo retirada apenas porque eles fogem da linha da normalidade. Sabendo-se que muitos gênios que passaram na terra foram considerados loucos, como Friedrich Nietzsche, Albert Einstein. É coerente afirmar que loucura é cultural, dada a uma determinada época o que é considerado louco e normal é variável.


O livro traz á tona os abusos físicos e psicológicos que as pacientes sofriam como “tratamento” de choque punitivo ( leia-se tortura de choque) e outros abusos como médicos que estupravam pacientes, inclusive a própria Joyce foi abusada por um médico.


A individualidade da paciente é retirada no momento em que ela entra no local, cada uma é chamada por um número, o número de matrícula do internamento, o número de Joyce era 1313 e por isso ela é chamada de Treze. Situação que é questionada por ela com extrema lucidez. Ela chega a chamar o doutor de 2424, em um momento em que reivindica a ele mais cuidado e um tratamento humano. Mas infelizmente por esse ato, é levada pra sala de choques elétricos e fica desacordada durante um tempo. Nesse período a personagem tem uma experiência psicodélica em que sai do corpo a ponto de ver o seu próprio corpo deitado na maca do hospital e se encontra com seu mestre espiritual Jesus que a ensina diversas coisas e ainda conta pra ela sobre o seu futuro e o futuro da humanidade, a ensina filosofia, teologia e história. Ela conta para as pacientes que são suas amigas sobre a experiência que a apelidam carinhosamente de “psicodélica”.


Chega o momento em que Joyce sai do manicômio, mas ela enfrenta diversas barreiras e preconceitos por ter sido internada no manicômio, apesar disso ela supera tudo. A autora do livro conta a história com uma sensibilidade e detalhes, respeitando muito a sua personagem. As músicas da época, as novelas que passavam na tv brasileira na época, tudo é contado com o máximo de detalhes. E a relação da personagem com a música é extraordinária. O que nos leva a pensar que talvez Joyce se tivesse a sorte de ter um tratamento humanizado com musicoterapia, teria saído daquela situação muito mais rápido. É preciso ser atento e forte e perceber o que há detrás das indústrias farmacêuticas e psiquiatras que prescrevem medicamentos indiscriminadamente.


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